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17 de Setembro de 2011

"Midnight in Paris" por Nuno Reis

Porque eu só estou bem, aonde eu não estou...

Woody Allen vinha a professar o seu amor por Nova Iorque de forma bem visível. Em segundo lugar estava claramente Paris e a cidade finalmente volta a ter um filme ao nível do primeiro (“Everyone Says I Love You”). Só que desta vez não é somente um período temporal de Paris que é louvado, mas todo um século de glória da capital francesa. A tal ponto que ficamos na dúvida se Woody não terá trocado de amor...

Um casal de americanos viaja para Paris com os pais dela. Gil adora a cidade e sonha viver lá como os grandes artistas dos anos 20. Inez apenas quis ir passear. Numa noite de muito álcool, enquanto Inez se diverte à grande com um casal amigo (Michael Sheen irreconhecível), Gil vai dar um passeio a pé. Acaba por ir dar a um largo onde é convidado a entrar num carro que passa (grande Tom Hiddleston) e a vida dele vai mudar. Não vale a pena dizer mais e correr o risco de estragar toda uma experiência de sonho como só Allen conseguiria proporcionar. Convém é prevenir que o prazer do visionamento será proporcional à cultura - americana e europeia - de cada um. Se o filme parecer bom da primeira vez, umas leituras rápidas - nem que sejam na Wikipedia - farão com que o segundo visionamento seja ainda melhor. Isso porque apesar de ser um filme acessível a todos, é forçosamente melhor quanto melhor se perceber as referências e se há um filme com referências é este. Não adianta resistir, mais cedo ou mais tarde haverá um segundo visionamento e será garantidamente melhor.

Gil (Owen Wilson) é um alter-ego de Allen com todos os tiques e maneirismo que o actor-realizador nos acostumou ao longo de décadas. Quem gosta de Allen está formatado para gostar desta personagem e quem não gosta acabará por se deixar seduzir pelo jeito trapalhão deste argumentista que não suporta Hollywood e os argumentos ocos que a indústria devora. Estou a falar da personagem, não se deixem confundir pelas semelhanças. O protagonismo feminino teoricamente seria de Rachel McAdams, a noiva, mas estamos em França e para ser educado Allen deixa que Marion Cotillard roube o espectáculo. A tal ponto que a oscarizada faz esquecer as americanas (Alison Pill, Kathy Bates) e mesmo entre as locais não tem rival pois Léa Seydoux é uma mera vendedora de nostalgias e a primeira-dama tem um pequeno papel nas relações internacionais. Não há muitos outros actores conhecidos (referiria Adrien Brody), mas foram escolhidos a dedo e deram vida a muitas personagens inesquecíveis. Ninguém se surpreende com o grande elenco reunido nem estranha que eu elogie a fabulosa direcção de actores.

Allen melhora com a idade pois os temas principais continuam a ser o amor, a morte e o medo de errar, mas cada vez ficam mais diluidos na história, dendo-lhe nexo, enriquecendo a narrativa, fazendo o espectador pensar. A história é das que fazem sonhar. Como é habitual no que vem deste argumentista foge um pouco para a comédia, balanceia entre ficção e realidade, e revela uma Paris mágica onde não falta aquele cantinho à beira-rio que para mim será sempre sinónimo de Allen. Quem quer uma visita guiada pela cidade tem uns minutos de monumentos no início, mas depois tem apenas pessoas, ideias e muita honestidade, como todas as obras-primas que o realizador nos ofereceu.

Se Allen não estivesse a saltar de terra em terra fazendo odes magistrais a todos os sítios por onde passa diria que isto lhe tinha vindo do coração. Vendo no panorama conjunto dos últimos anos e dos seguintes diria que veio do coração com uma breve passagem pela carteira, mas tudo o que recebeu foi completamente merecido pois este é o filme definitivo sobre Paris e finalmente tenho um motivo e vontade de lá ir..

Midnight in ParisTítulo Original: "Midnight in Paris" (Espanha, EUA, 2011)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Kathy Bates, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Carla Bruni, Alison Pill, Yves Heck, Corey Stoll, Tom Hiddleston, Léa Seydoux, Adrien Brody
Fotografia: Johanne Debas, Darius Khondji
Género: Comédia, Fantasia, Romance
Duração: 94 min.
Sítio Oficial: http://www.sonyclassics.com/midnightinparis

26 de Julho de 2011

Os actores de Woody Allen

Grande compilação do blog Every Woody Allen Movie

Woody Allen actors

17 de Junho de 2011

Os novos Woody Allen

Nem de propósito! O blog Keyzer Soze's Place (não relacionado com nenhuma revista) divulgou hoje uma compilação dos actores que Allen usou para fazer dele mesmo.

É quase uma súmula do que ele tem feito na última década.

15 de Junho de 2011

"Vicky Cristina Barcelona" por Nuno Reis

Barcelona é aquela cidade de que é difícil não gostar. Toda a sua história, cultura, arte, beleza e mesmo aspirações autonómicas fazem com que seja um farol no meio de um continente que teima em viver no passado. Não admira que tenha uma das canções jamais dedicadas a uma cidade. Faltava-lhe ainda o filme de referência e para isso lá estava Woody Allen, já farto de Inglaterra, mas sempre encantado com a Europa.
Vicky Cristina Barcelona

Vicky e Cristina são duas amigas completamente opostas. Enquanto Vicky está noiva e visita Barcelona para aprofundar conhecimento, útil para o mestrado em cultura catalã, Cristina vai apenas para espairecer e se divertir. Aqueles dois meses de Verão depressa se transformam numa aventura quando um sedutor pintor as convida para um fim-de-semana em Oviedo de sexo a três.
Vicky Cristina Barcelona

Além de ser a musa do momento do cineasta, Johansson é Allen. Artista incompreendida e frustrada, apaixonada pela Europa e revoltada contra a “cultura puritana e materialista da América”, divide-se entre cinema, poesia, fotografia. Até tem uma úlcera para que não passe despercebido a ninguém qual o papel que desempenha nesta estória. Mas ela pouco importa porque como Vicky temos Rebecca Hall. A “desconhecida” em quem Allen apostou para este filme já tinha trabalhado com Johansson em “The Prestige” onde fazia de esposa de Christian Bale. Faltava-lhe um filme onde as mulheres pudessem brilhar e aqui conseguiu-o. A nomeação para Golden Globe prova que aqui nasceu uma estrela. Mas este filme estava destinado a consagrar outra pessoa. Um ano depois do Oscar para Bardem o mundo aguardava por outra estrela espanhola que se juntasse a Garci, Trueba, Almodóvar e Amenábar. Penélope Cruz chega a meio do filme e faz tudo como mandava a receita para levar o Oscar, mas Rebecca Hall continua a ser a estrela. Ressalvo que um dos pontos altos do filme é a forma expressiva como os dois actores europeus conseguem intercalar os idiomas.

Vicky Cristina Barcelona

A história original foi feita para San Francisco e guardada numa gaveta, apenas a proposta de financiamento catalão, 10% do filme, levou Allen a filmar lá o argumento mais portátil que tinha pronto (a referência a Oviedo é por a cidade ter uma estátua em tamanho real do cineasta). O maior problema disso é que a Barcelona percorrida é a dos turistas. Falta aquele toque pessoal que um argumentista e um guia separados não conseguem. Faltou pensar o filme sentindo a cidade, sendo Barcelonés. Claro que como sempre a música é fenomenal e basta começar com aqueles acordes inesquecíveis para que fiquemos rendidos à cultura catalã, mas nem isso chega para fazer um filme acima da média.
Contudo para muita gente mais importante do que o filme é a moral que o percorre, lição dada por quem já muito viveu e se considera uma autoridade em amor: mais vale arrepender do que se fez, do que arrepender que não se fez. E por isso é um filme que se deve ver pelo menos uma vez, de preferência quando se pensa estar apaixonado.


Vicky Cristina BarcelonaTítulo Original: "Vicky Cristina Barcelona" (Espanha, EUA, 2008)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penelope Cruz, Patricia Clarkson
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Género: Drama, Romance
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://www.vickycristina-movie.com/

13 de Junho de 2011

"Scoop" por Nuno Reis

Sondra Pransky: You are a cynical crapehanger who always see the glass half-empty!
Sid Waterman: No, you're wrong. I see the glass half full, but of poison.

Por uns momentos Woody Allen deixou de procurar um substituto. Deixou de tentar transformar os outros actores nele. Por algum tempo rendeu-se - como todos os seus fãs - a Scarlett Johansson e deixou-a ser o filme. Muitos terão achado um exagero. Numa série de quatro filmes por três vezes recorreu a esta musa. E dos três este foi o menos aplaudido, mas ainda assim consegue ser muito convincente.
Scoop

Sondra é uma aspirante a jornalista muito crédula. Num truque de magia - temática recorrente - entra em contacto com um jornalista morto que lhe revela a identidade do assassino do Tarot, o serial killer do momento. Desejosa de investigar para se afirmar profissionalmente, Sondra arrasta o ilusionista consigo numa história inventada de riqueza petrólífera para se aproximar do aristocrata acusado. À medida que se aproxima do suspeito Sondra vai-se apaixonando e nunca consegue as provas necessárias. Pode ser que o fantasma esteja enganado? Será que já nem se pode confiar num fantasma?
Scoop

É um filme com muito humor, que supera facilmente o que vinha a ser feito nessa área. A mudança de ares foi uma boa ajuda e mesmo a repetição da fórmula do filme anterior “americana em Londres apaixona-se por aristocrata” vista sob o olhar do fantástico e da comédia ganha outro sabor. Tal como foi provado em “Melinda and Melinda” uma qualquer história pode ser uma comédia ou um drama, só depende de como se conta.
Quanto ao papel de Allen faz lembrar muitos anteriores, mas como veio após um interregno (e só em 2012 voltará à frente das câmaras) não parece repetitivo. O desempenho de Johansson com diálogos de Allen é surpreendente. Revela uma faceta de comediante até então subaproveitada e que mesmo depois ninguém soube usar. O maior problema de se ser um sex symbol é que todos nos acham engraçados ser que isso seja verdade, e quando é, ignoram. Prestando atenção aos diálogos Sondra é da personagens mais inteligentes que a actriz já fez, e ainda por cima fica bem em fato-de-banho.
Scoop



ScoopTítulo Original: "Scoop" (EUA, Reino Unido, 2006)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Scarlett Johansson, Woody Allen, Hugh Jackman, Ian McShane
Fotografia: Remi Adefarasin
Género: Comédia, Fantasia, Mistério, Romance
Duração: 96 min.
Sítio Oficial: http://www.tfmdistribution.com/scoop/

Alguns festejam sempre da mesma maneira


12 de Junho de 2011

"Match Point" por Nuno Reis

Londres pelos olhos do grande nova-iorquino.

Durante anos Allen esteve apaixonado por Nova Iorque. Dois trabalhos chamados precisamente como a cidade, dois de nome Manhattan e dois Broadway juntam-se a uma dezena de outros que apenas poderiam ter sido filmados naquela cidade. Alguns filmes no início de carreira foram filmados na Europa por questões cénicas ou de orçamento, mas não faziam parte da história do filme. A fase europeia - que começou precisamente em Paris em 1996 - recomeçou há seis anos em Londres. Podia não ser na cidade amada, mas era com uma nova-iorquina quase tão conhecida e que decerto muitos milhões gostariam de percorrer. Foi o primeiro de uma trilogia com Scarlett Johansson e com benefícios para ambos. Por um lado a actriz manteve a credibilidade em alta por esse período, do outro lado, o realizador conquistou toda uma nova geração. Porque "Match Point" não é um filme para quem gosta de Allen, "Match Point" é um filmão.
Match Point

Quem conhece Allen sabe que um dos problemas é a receita ser sempre tão parecida e os filmes terem temáticas semelhantes. A receita deste jogo já tinha sido utilizada num filme dele, o meu preferido "Crimes and Misdemeanours" tem muitos elementos comuns. Só que enquanto no "Crimes" há duas narrativas paralelas que se cruzam magicamente e meia dúzia de actores liderados por Martin Landau, aqui quase só há uma personagem, Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers), e os outros giram em torno dele. Essa especificidade permite a Allen jogar com tudo o que se passa à volta de Chris, trabalhando música, espaços, rostos e até a cidade. As personagens vão sendo transformadas, porque envelhecem, porque mudam de gostos, de sonhos, ou simplesmente porque as pensávamos conhecer sem ter visto em profundidade. Allen mais uma vez ensina que no bom cinema não há personagens menores, quanto muito haverá algumas com personalidades menos interessantes.
Match Point

A manipulação é uma constante neste jogo perigoso. Um espectador vendo o filme pela primeira vez estará desarmado. À segunda talvez se proteja melhor, mas continuará a tomar partidos, uma coisa que neste match leva sempre à derrota porque todos perdem. E assistam-no de mente limpa e coração puro, com confissão feita e penitências superadas. Procurem aquele bocadinho de malvadez escondido no vosso coração e arranquem-no antes que "Matchpoint" o encontre. Porque é por aí que este filme vai pegar, para torcer num movimento contínuo e tortuoso que levará à prostração.
Match Point

Da primeira vez que vi o filme achei um pouco monótono a meio. Agora percebo que era propositado, era o filme a funcionar, a fazer-me sentir aquilo por que Chris estava a passar na sua escalada social. Não é uma obra perfeita. Como sempre uma pessoa que queira implicar encontrará falhas menores no argumento. Acontecimentos que não fazem tanto sentido como se gostaria, mas que ao espectador normal passam despercebidos. Detalhes insignificantes num filme que ombreia com os maiores deste autor.

Match PointTítulo Original: "Match Point" (EUA, Irlanda, Reino Unido, Rússia, 2005)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Matthew Goode
Música:
Fotografia: Remi Adefarasin
Género: Crime, Drama, Romance, Desporto, Thriller
Duração: 124 min.
Sítio Oficial: http://www.dreamworks.com/matchpoint/

10 de Junho de 2011

"Hollywood Ending" por Nuno Reis

Val: You know, I would kill for this job, but the people I want to kill are the people offering me the job.

Se estivessem a produzir um filme sobre Nova Iorque que realizador escolheriam? Woody Allen é um nome que todos considerariam porque não consegue fazer um filme nessa localização sem que se perca nos encantos da metrópole. É isso mesmo que pensa Ellie (Téa Leoni) que propõe para realizar um filme passado em Nova Iorque o seu ex-marido Val (Allen), um outrora brilhante e oscarizado realizador que actualmente faz anúncios de desodorizante no Canadá. Val não tem condições para recusar e vai ter de aceitar. Consegue ter algum controlo e inclusivamente ter a namorada (Debra Messing) no filme, mas na véspera das filmagens fica cego. Continua a não poder recusar, e terá de alguma forma manter o segredo longe da vista dos outros. Para começar recorre ao intérprete do director de fotografia chinês, depois “verá” o que fazer. Conseguirá fazer algo? Conseguirá enganar ambas as mulheres da sua vida?
Hollywood Ending

Voltando ao tema do título escolhido, “Hollywood Ending” é quase o filme de despedida do cinema americano. Para além da capa revela um descontentamento com o cinema da Costa Oeste e acusa-os de tentarem controlar tudo à distância. Este foi um filme muito autobiográfico para Allen. “Vallen” é o homem que sabe filmar Nova Iorque. Era um grande realizador que nesta altura muito dariam como perdido. Tinha acabado de fazer três filmes com fotografia do chinês Fei Zhao. Também ele corre o risco de se cruzar com a ex-mulher no mundo do cinema. A jornalista abelhuda é provavelmente uma indirecta para algum produtor que tenha autorizado uma repórter a assistir às filmagens com prejuízo do filme. A forma como Val fala do filho (estrela musical que come ratos em palco) seguramente estará relacionada com o facto de o filho biológico de Allen se recusar a vê-lo. E os momentos terminais (não especifico para evitar spoilers) pelo menos em parte tornaram-se realidade para Allen.
Hollywood Ending

Os diálogos são rápidos e eficazes como é habitual. Não tão hilariantes como em filmes anteriores, mas ainda acima da média. O chinês é desconcertante por não se compreender o que diz (faz recordar a situação de Bill Murray no brilhante "Lost in Translation") e o filho quebra um pouco com a rotina em que entraram os filmes de Allen. É um filme que ganha outro sabor quando se percebe o que se passa na cabeça do cineasta. Sem isso é um trabalho mediano com uma situação improvável e muita comicidade relativa, pois a única coisa nova é mesmo a cegueira de um realizador e extrair humor de uma única situação durante uma hora é quase impossível. Ficou muito aquém do esperado.


Nota: Mais uma vez os brasileiros foram particularmente felizes com a tradução para "Dirigindo no Escuro". Espero pelo dia em que possa dizer o mesmo das nossas.

Hollywood EndingTítulo Original: "Hollywood Ending" (EUA, 2002)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Woody Allen, Téa Leoni, Debra Messing, Mark Rydell, Treat Williams, George Hamilton
Música:
Fotografia: Wedigo von Schultzendorff
Género: Comédia, Romance
Duração: 112 min.
Sítio Oficial: http://www.dreamworks.com/hollywoodending/

9 de Junho de 2011

"The Curse of the Jade Scorpion" por Nuno Reis


Estamos em Nova Iorque, nos anos 40. CW Briggs é o melhor investigador de uma companhia de seguros. Um misto de artista e vigarista, recorre a informadores e outros métodos pouco sofisticados para investigar. O seu instinto de perdigueiro e a capacidade de se colocar na mente do criminoso tornam-no imbatível. O seu arqui-inimigo é a mais recente funcionária da empresa, determinada em optimizar os processos da empresa e em acabar com os artistas com mais sorte do que inteligência. Acabar com Briggs para ser específico. Eles odeiam-se, mas quando um ladrão indetectável começa a atacar todos os seus protegidos fintando inclusivamente defesas planeadas por Briggs, ou se unem ou a empresa corre sérios riscos de falir.
Curse Jade Scorpion

Os títulos dados por Allen aos seus filmes são algo sem uma origem concreta. Pode ser uma personagem, um acontecimento, ou uma breve sinopse. Por exemplo, “Manhattan Murder Mystery” era o working title. O título final ficou assim porque não apareceu nenhum melhor entretanto. Neste o objecto-alvo da atenção é um escorpião de jade com uma maldição. Mais uma vez a magia faz parte do imaginário num filme de Allen. Seja ele o mágico, a vítima ou o beneficiado com o truque, a magia é daqueles elementos que ele usa e abusa sempre que pode. O Escorpião de Jade é apenas a ferramenta de um ilusionista usa para acalmar os ânimos entre o par principal. Efeito temporário que durante meio filme nem será recordado.
Curse Jade Scorpion

Se quiserem irritar alguém no trabalho este é o filme que lhes pode ensinar tudo. A troca de galhardetes entre Betty Ann Fitzgerald e CW Briggs é uma batalha épica. Para o final começa a perder fulgor, mas ainda é o suficiente para se acreditar que sempre se deram assim. Como é costume Allen faz-se acompanhar muito bem, desta vez por uma actriz (Helen Hunt) que estava no ponto alto da carreira cómica. O desempenho de Allen deixa a desejar, mas o malandro mesmo estando mal ficou com a melhor parte do argumento: nem todos os homens têm a sorte de ordenar a Charlize Theron que os persiga e assedie. Não está tão deslumbrante como em “Celebrity”, mas como é apenas um aparte da história - uma fantasia tornada realidade - resta-nos agradecer a participação.
Curse Jade Scorpion

O elemento fantástico da história é demasiado esotérico. A relevância que tem nem seria muita, mas como é o fio condutor da narrativa podia estar melhor. Os diálogos são brilhantes, as situações mirabolantes e o resto está lá apenas para enfeitar. Mais uma história construída em torno de quase nada.

The Curse of the Jade ScorpionTítulo Original: "The Curse of the Jade Scorpion" (Alemanha, EUA, 2001)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Woody Allen, Helen Hunt, Charlize Theron, Dan Aykroyd
Música:
Fotografia: Fei Zhao
Género: Comédia, Crime, Mistério
Duração: 103 min.
Sítio Oficial: http://www.dreamworks.com/jadescorpion/

8 de Junho de 2011

"Small Time Crooks" por Nuno Reis


Ray: The Brain. That's what the guys used to call me right?
Benny: But, Ray, that was sarcastic!

Depois da animação da formiga, eis que começa a verdadeira parceria com a Dreamworks. Este é o primeiro de um acordo de cinco filmes e ironicamente o melhor deles. O único problema é a mensagem principal estar demasiado escondida debaixo da comédia.
Small Time Crooks

Um grupo de criminosos pouco inteligentes liderados por Ray (Woody Allen) planeia assaltar um banco fazendo um túnel desde a loja do lado. Para fachada montam uma loja de biscoitos dirigida por Frency (Tracey Ullman) que começa a render dinheiro. Depressa estão tão ricos que não precisam de roubar, mas a inteligência não chega para tudo e mantêm o plano.
Small Time Crooks

Isto não é o clássico filme sobre um crime. Tem muitas referências ao género, especialmente a “Take the Money and Run”, mas depressa a temática muda. O verdadeiro alvo desta comédia não é o ladrão saloio, é o fenómeno dos novos-ricos. A forma como Ray e Frenchy se integram na sociedade mal sabendo ler ou escrever, os investimentos que fazem com vista ao lucro ou apenas por filantropia, como todos se riem nas costas dele e como a lagartixa quer chegar a jacaré. Há alguns gags tão bons que na sátira social à aristocracia nova-iorquina foram utilizados truques que viriam a ser repetidos em “Scoop” para referir a nobreza londrina. A mensagem que passa está actualizada e continuará actual por bons anos.
Small Time Crooks

O mundo dos menos beneficiados com inteligência está muito bem representado com Ulman e Allen. São génios da comédia nas versões com e sem dinheiro. O filme acompanha-os em separado e é dos poucos em que o nível de interesse de um espectador é igual para ambos.Isso porque qualquer um deles está sempre na eminência de fazer algum grande momento de cinema. Um dos pontos fortes deste trabalho é o equilíbrio entre personagens. Excepto pelos cúmplices que depois da riqueza só têm direito a uma mísera cena, todos conseguem o seu espaço maior ou menor.
Ao entrar em cena Hugh Grant o filme ganha outro nível. Este indivíduo de charme quase lendário faz o que lhe compete: é ele próprio e traz carisma a um filme que se esforçava por não o ter. Tem um papel pequeno, feito à medida. Mas acima de todos esses está Elaine May que quando entra em acção é imparável a tirar a sofisticação das situações de gala. Esta argumentista premiada (“Reds”, “Heaven Can Wait”, “Tootsie”, “Primary Colors”) e realizadora raramente aparece diante das câmaras, mas aqui é soberba como a mais burra entre os burros e causa gargalhadas do início ao fim. Seja com o hilariante desempenho dramático de May ou com a comicidade dos restantes durante o drama, é esse constante cruzamento de estados que torna o filme irreverente e divertido. É uma comédia fácil de ver, com tudo o que é preciso para entreter. De vez em quando sabe bem ver algo ligeiro.


Small Time CrooksTítulo Original: "Small Time Crooks" (EUA, 2000)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Woody Allen, Tracey Ullman, Elaine May, Hugh Grant
Fotografia: Fei Zhao
Género: Comédia, Crime
Duração: 94 min.
Sítio Oficial: http://www.smalltimecrooks.co.uk/

7 de Junho de 2011

"Picking Up the Pieces" por Nuno Reis

Este não é culpa de Allen, apenas tem o azar de ser actor. Quem o escolheu para encarnar um assassino tem criatividade, será comprovada no restante elenco, mas também conseguiu deixar o filme numa rota de suicídio.

Tex Cowley é um talhante texano que se acha ilusionista e por isso corta a mulher a meio. Em sete partes para ser específico. Ao enterrá-la no distante Novo México pensa que está livre do problema, mas um dos muitos amantes dela, um ranger, não desiste de a procurar. Enquanto isso a única peça perdida do cadáver - uma mão a fazer um gesto obsceno - é encarada pela população local como uma relíquia da Virgem capaz de curar todos os males. A controlar o movimento há um padre sem vocação, um presidente sem escrúpulos e muita gente sem juízo.

Ao início o filme prometia. Começa com um bom ritmo e é minimamente curioso para se ver. Ao fim de meia hora a linha entre a comédia e a palhaçada sem graça é ténue e ao fim da primeira hora só se espera que acabe. Um filme que daria uma boa curta foi crescendo, enrolando, e acabou não sendo nada. Tem um elenco muito razoável que inclui Woody Allen, David Schwimmer, Kiefer Sutherland, Maria Grazia Cucinotta, Fran Drescher, Elliot Gould, Joseph Gordon-Levitt, Cheech Marin e Sharon Stone. A maioria dos papéis cristãos foram entregues a judeus e essa ironia do casting é inteligente se bem que a piada se esgota em minutos.

O argumento até poderia ser melhor com um pouco de trabalho. A ideia de um objecto sagrado ser obsceno e de uma virgem ser promiscua são boas contradições. O cão é uma personagem quase ridícula que cumpre exageradamente o papel cómico. E finalmente há a velha questão do padre que não serve de exemplo e a circulação de dinheiros sujos. Tem um grau de interesse mínimo, mas que não chega para o filme todo. Quanto aos actores esforçaram-se em serem maus, é a única coisa que explica tamanho atentado. Finalmente quanto à realização o latino Alfonso Arau consegue criar o ambiente mexicano/americano adequado. Pouco mais de positivo há a dizer e a edição de som é como se não existisse. É um daqueles casos em que o filme não tem razão de existir e não se percebe como estreou em cinema em tantos sítios. Até os prémios ALMA - do cinema latino nos EUA - o nomearam como telefilme num esforço para que não chegasse aos cinemas...

Picking up the PiecesTítulo Original: "Picking up the Pieces" (EUA, 2000)
Realização: Alfonso Arau
Argumento: Bill Wilson
Intérpretes: David Schwimmer, Woody Allen, Kiefer Sutherland, Maria Grazia Cucinotta, Sharon Stone, Fran Drescher
Música: Ruy Folguera
Fotografia: Vittorio Storaro
Género: Comédia, Fantasia
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: http://www.kushner-locke.com/films/feature/pickinguppieces/pieces.html

6 de Junho de 2011

"Sweet and Lowdown" por Nuno Reis

Se estiveram atentos às fichas técnicas dos filmes aqui indicados com Woody Allen como realizador, devem ter reparado que raramente há um compositor associado ao projecto. Isso porque Allen é músico de jazz e gosta de fazer as faixas com base no seu próprio gosto e, por vezes, com música composta por ele mesmo. Essa enorme devoção ao jazz está ainda mais patente neste filme muito especial, um falso documentário sobre o maior músico que existiu.
Sweet And Lowdown

A música soa melhor quando tocada com o coração. Essa é a única lição que Emmet Ray precisa de aprender para ser o melhor guitarrista jazz de sempre. Até lá, estará sempre atrás do francês de origem cigana Django Reinhardt. Outro problema de Emmet é que a simples possibilidade de se encontrar com Django o faz fugir de qualquer forma possível. E finalmente, ele é um bêbedo, ordinário, arrogante, miserável e demente protótipo de ser humano. Até que quando ele e um amigo conseguem engatar duas raparigas, Emmet pode bem ter encontrado alguém que o vai fazer encarar o mundo de outra forma.
Sweet And Lowdown

Para personagem fictícia a descrição está perfeita. Os detalhes da sua vida, incluindo as taras e as ideias mais loucas, são apresentados. Seja indirectamente pelas entrevistas de quem o conheceu e ouviu, ou porque vemos esses flashbacks, aprendemos a gostar de Emmet porque a encantadora Hattie lhe dá uma oportunidade. E torna-se uma personagem inesquecível pelas imensas particularidades - manias! - com que nos surpreende a cada instante. Como sobreviveu ao seu passado é uma questão sem resposta.
Sean Penn dá um ar da sua graça, literalmente. Porque não é normal vê-lo em comédias essas ocasiões devem ser aproveitadas e presenteia-nos com um sacana de luxo.
Morton criou a personagem da forma que eram criadas nos tempos do cinema mudo. O que exprime com o rosto dispensa as palavras e isso valeu-lhe inúmeros prémios, incluindo uma nomeação para Oscar. A coragem de Allen para arriscar numa actriz quase exclusivamente televisiva para tal posição diz muito sobre o que consegue de um actor: tudo.
Sweet And Lowdown

Esta podia ter sido uma obra muito maior do que realmente se tornou. A paixão pela música, o elenco, tudo fazia supor que seria algo de monumental. Mas apesar de ter um Sean Penn formidável, uma Samantha Morton extraordinária e uma série de entrevistas muito bem conseguidas, mais uma vez pecou por tentar meter demasiadas histórias numa só. Todo o momento Blanche era desnecessário, só serve para causar saudades de Hattie. É através dela que Emmet consegue rapidamente a simpatia do espectador, sem ela perde-a lentamente. E um filme que esteve sempre na eminência de se tornar grandioso termina deixando apenas uma sensação de insatisfação...

Sweet and LowdownTítulo Original: "Sweet and Lowdown" (EUA, 1999)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman, Anthony LaPaglia, Gretchen Mol, Woody Allen
Fotografia: Fei Zhao
Género: Comédia, Musical
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: http://www.spe.sony.com/classics/sweetandlowdown/

5 de Junho de 2011

"Celebrity" por Nuno Reis

Logo depois de “Deconstructing Harry”, o mundo do cinema volta a ser o tema. Agora a personagem que seria Allen é interpretada por Branagh e, para justificar o título, as celebridades são mais que muitas como Leonardo Di Caprio, Judy Davis, J. K. Simmons, Melanie Griffith, Winona Ryder, Sam Rockwell, Famke Janssen, Charlize Theron, Gretchen Mol, Debra Messing, Joe Mantegna, Hanz Azaria, Donald Trump e Aleksa Palladino. Alguns deles então não eram conhecidos, mas o poder de antecipação de Allen não é novidade para ninguém.
Celebrity

Lee Simon é um jornalista de celebridades. É uma profissão desgastante em que se convive com as estrelas e elas querem agradar para ficarem bem vistas. A completa antítese do paparazzi. Enquanto fala com actores o escritor fracassado também tenta impingir-lhes um argumento que escreveu. Robin, a ex-mulher dele simplesmente queria fazer uma plástica, mas escolheu mal o dia. Foi ao consultório da moda quando lá estava a televisão e um produtor mete conversa com ela. Enquanto Lee vive num mundo de ilusões e desilusões com as gente do cinema, Robin está encaminhada para ter um amor real com alguém da televisão.
Celebrity

Não é um filme fácil de acompanhar. Enquanto Robin tem um percurso linear, os momentos de Lee funcionam como capítulos quase isolados. Ele tenta equilibrar uma relação estável, casos fortuitos com celebridades e uma paixão impossível. Vai-se perder no meio de tantas mulheres, qualquer uma delas bem capaz de levar um homem à loucura por si só (Melanie Griffith, Charlize Theron, Famke Janssen, Winona Ryder, é só escolher). Vai perder dinheiro com o jovem actor (DiCaprio) que nunca tem tempo para ele. É assim a vida entre as celebridades, uma constante correria, muita emoção, muitos contactos, poucos resultados e, no fim, um enorme vazio.
Há uma mensagem clara a ser passada aqui. O mundo da fama é um deslumbramento, mas quem não nasceu para ele, não se deve aventurar no Inferno, especialmente se tenciona olhar para trás. Porque é um estatuto que pressiona os aventureiros até os destruir e cairem no esquecimento a que sempre estiveram destinados. Pode-se aplicar a diversas castas da sociedade, mas a das celebridades, por ter aquela aura mística de um Olimpo a que alguns comuns mortais conseguem chegar, é das mais adequadas. E assim Allen fala do que sabe, ele que viu muitos dos seus contactos seguirem ou o caminho da felicidade ou o da miséria.
Celebrity

Há muitas grandes cenas que serão lembradas. O filme no seu todo é que não tem tido nem terá a mesma sorte, precisamente por ter sido criado como uma compilação de grandes momentos - memórias? - e não como uma história contínua. Destacaria toda a participação de Theron como de sonho. Não só a menina é muito agradável à vista como toda a personagem foi moldada de forma a emanar uma sensualidade sem precedentes. É tudo o que se fantasia de um celebridade e muito mais. Destacaria ainda o final de Lee, doloroso qb. para quem se considere escritor.

CelebrityTítulo Original: "Celebrity" (EUA, 1998)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Kenneth Branagh, Judy Davis, Melanie Griffith, Charlize Theron, Joe Mantegna, Leonardo Di Caprio, Famke Janssen, Winona Ryder
Fotografia: Sven Nykvist
Género: Comédia, Drama
Duração: 113 min.

4 de Junho de 2011

"AntZ" por Nuno Reis

Z: I think everything must go back to the fact that I had a very anxious childhood. My mother never had time for me. You know, when you're - when you're the middle child in a family of five million, you don't get any attention.

Z é uma formiga obreira num formigueiro. Ele não se sente bem integrado na sociedade e além de ter várias consultas no psicólogo, tenta perceber porque a colega de trabalho Azteca e o amigo militar Weaver se sentem tão bem com um regime totalitário. Será ele que é diferente ou os outros cinco milhões de formigas estão errados? Quando um acaso do destino o torna uma figura lendária, será a inspiração para a colónia, mas nessa altura Z partiu em busca da sua felicidade individual.
Antz

Estamos na fase Dreamworks, a que por muitos é considerada a pior de Allen. No entanto aqui temos um caso único na carreira do actor/argumentista/realizador: as animações e os filmes adequados para crianças. Foi também o filme que lançou demasiadas expectativas demasiado cedo sobre os estúdios de animação Dreamworks. Porque está história de formiguinhas foi feita com muitos pés e cabeça e conseguiu uma coisa rara: a única coisa que deixou de ser actual no filme foi um par de torres. A Dreamworks demorará a conseguir voltar a este nível.
Antz

As personagens foram moldadas com base no estilo de papéis que os actores fizeram. Allen é o neurótico, Stallone é o musculoso com coração mole, Jennifer Lopez uma formiga descontraída e independente, Hackman um general implacável e insensível, Walken um mercenário eficaz e impiedoso, Danny Glover um veterano bem-disposto e Sharon Stone a sensual e irreverente princesa. Para os espectadores adultos as vozes encaixam nas personagens, para as crianças são apenas formigas. Um dos problemas do filme é precisamente esse. Na tradição Disney há sempre muitos animais peludos e coloridos. Aqui só temos formigas em tons de castanho, castanho-terra ou castanho-lama. Quanto a pêlos há umas lagartas de vez em quando. Por isso é que o filme se focou num público mais adulto, recriando cenas de combate de “Saving Private Ryan”, “Starship Troopers” e “Patton”, o discurso de “Dune” e a dança de “Pulp Fiction”.
Antz

Também a mensagem política é mais vocacionada para os adultos. O grupo é mais feliz se não houver individualismos. O indivíduo pensa que é mais feliz se não fizer parte do grupo. O indivíduo e o grupo têm de se adaptar para viver juntos pois nem a formiga consegue viver sem o colectivo, nem existe um colectivo sem formigas. A comparação do formigueiro com uma sociedade Orwelliana é cruel, mas é essa postura contra o fácil e o desejado que vai marcar a diferença e tornar este filme de insectos num clássico.
Para Allen foi uma semana de trabalho. Para o Cinema é um filme que perdurará.


AntZTítulo Original: "AntZ" (EUA, 1998)
Realização: Eric Darnell, Tim Johnson
Argumento: Todd Alcott, Chris Weitz, Paul Weitz (coordenação Catherine Dingman)
Intérpretes: Woody Allen, Sharon Stone, Sylverster Stallone, Jennifer Lopez, Christopher Walken, Gene Hackman, Dan Aykroyd, Danny Glover, Anne Bancroft
Música: Harry Gregson-Williams, John Powell
Género: Animação, Aventura, Comédia, Família
Duração: 83 min.

3 de Junho de 2011

"Deconstructing Harry"por Nuno Reis

Demónio: It's like Vegas. You're up, you're down, but in the end the house always wins. Doesn't mean you didn't have fun.

Quando um qualquer argumentista sofre de bloqueio de escritor tem de parar por muito frustante que seja. Isso é aborrecido, especialmente se há prazos a cumprir como no caso de Allen que faz um por ano religiosamente. Quando Allen sobre de bloqueio de escritor sabe que a personagem será ele mesmo e se chamará Block, Harry Block. Quanto ao tema, se estando inspirado era baseado na própria existência, estando sem nenhuma inspiração será totalmente dedicado a isso.
Deconstructing Harry

Harry é um escritor de sucesso que se inspirou nas personagens da sua vida para escrever. Quando vai ser homenageado pela escola que o expulsou, começa a recordar toda a vida, as relações que criou, as mulheres que perdeu e as personagens a quem deu vida. Essa viagem não será ao estilo de “Morangos Silvestres” porque escolhe uma companhia muito mais invulgar e, enquanto não chegam ao destino, Harry vai alucinar e falar com as personagens que criou, inspiradas nos seus conhecidos.
Deconstructing Harry

Para não me tornar repetitivo de filme para filme não vou repetir que é dos melhores elencos de sempre. Basta dizer que regressam mulheres fortes como Julie Kavner, Judy Davis e Mariel Hemingway, acrescenta Kirstie Alley, Elisabeth Shue, Julia Louis-Dreyfus e Demi Moore. Nos homens tem Stanley Tucci, Tobey Maguire e os deuses da comédia Robin Williams e Billy Crystal. Para comparação Paul Giamatti tem uma mera cena e a então desconhecida Jennifer Garner estreia-se em cinema como figurante. O diálogo entre Allen e Crystal é das coisas mais ordinárias, machistas, preconceituosas e brilhantes de sempre.
Deconstructing Harry

É raro um filme que explica tão bem o que é o cinema desde a criação do argumento até ao foco da câmara. E é também uma viagem pela vida e pela memórias, sobre os erros cometidos e os ainda por cometer (que vão ser muitos). Mas isto não é um filme sobre cinema. É um drama sobre envelhecer e sobre compreender a vida. Harry tem um problema com a sociedade. Aparentemente isto não funciona como ele desejaria e por isso é que prefere viver na sua ficção, onde seria a autoridade máxima - I'm a guy who can't function well in life but can in art - mas mesmo aí se depara com versões dos seus amigos que o criticam. Aqui Allen admite as suas falhas perante as personagens que criou no passado e os espectadores de sempre. Volta a ser ousado e artístico com um filme que tem tudo para ser ou amado ou odiado.

Deconstructing HarryTítulo Original: "Deconstructing Harry" (EUA, 1997)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Woody Allen, Elisabeth Shue, Kirstie Alley, Billy Crystal, Judy Davis, Demi Moore, Robin Williams, Mariel Hemingway, Julie Kavner, Julia Louis-Dreyfus, Stanley Tucci, Tobey Maguire, Paul Giamatti
Fotografia: Carlo Di Palma
Género: Comédia, Drama, Fantasia, Romance
Duração: 96 min.